sexta-feira, 17 de abril de 2015

Para Sempre Alice, um mundo de reflexões para os linguistas


Na sua vida de tradutor ou intérprete, aposto que você tem alguns “brancos” de vez em quando. O que fazer quando o signo linguístico aparentemente se descola na nossa mente? Você já ouviu ou leu aquela palavra, mas ela não evoca um conceito imediato. Ou o contrário: o conceito está claro, mas a palavra certa para expressá-lo não vem à mente? Para o tradutor, é mais fácil lidar com isso, mesmo que aquela palavra surja apenas depois de meia hora. Na vida do intérprete, é bem mais difícil, mas vale tudo para dar um gás na memória: ajuda do colega, pesquisa na cabine, paráfrases, exercícios de memorização e por aí vai...

No entanto, se esses brancos se tornassem cada vez mais frequentes, a ponto de você começar a esquecer o sentido de palavras comuns, como “palavra”? Ou, mesmo agora, no momento em que está lendo este texto, você se esquecesse completamente do que acabou de ler e, aos poucos, não conseguisse mais transformar os sinais visuais que compõem as palavras em informações linguísticas importantes para reconhecer o conteúdo do texto? Lentamente, você se esqueceria de tudo o que levou anos para aprender na faculdade ou na prática. Pior: esqueceria quem você é.

Esse é o drama da personagem Alice Howland, uma linguista de sucesso, diagnosticada com Alzheimer aos 50 anos. Para Sempre Alice, baseado no livro homônimo de Lisa Genova,  é um desses filmes que pode dar calafrios em todo estudante ou profissional de linguagem, mas vale a pena assistir. Afinal, poucas histórias tratam de um tema tão caro para nós: a linguagem como base da nossa visão de mundo, da expressão de nossas emoções, de nossas ideias, do nosso sucesso como profissionais – e como lidar com a perda de tudo isso sem deixar a peteca cair.


Julianne Moore mereceu ganhar mais de 30 prêmios por sua atuação no filme, pois conseguiu transmitir a seriedade da profissão de linguista, aquele que se dedica a estudar a linguagem humana dentro de um quadro científico. Mas o ponto alto de sua atuação é quando transborda a fragilidade humana da cientista diante de fenômenos irreversíveis da natureza que ainda não conseguimos explicar ou aceitar completamente. Um dos momentos mais tocantes no filme é quando ela percebe que seu processamento linguístico está se deteriorando, ao dizer: “Sempre me defini por meu intelecto, minha linguagem, minha articulação, e agora às vezes consigo ver as palavras pairando na minha frente, mas não consigo alcançá-las, e não sei quem sou nem o que vou perder em seguida”.

Questões que antes a fascinavam, como objeto de estudo, passam a se materializar em sua experiência: como as pessoas adquirem, produzem e compreendem a linguagem verbal? Algo que parece tão simples e natural, na verdade, requer um conjunto complexo de procedimentos mentais e sinapses neurológicas, que formam um verdadeiro parser sintático em nosso cérebro. Hoje se sabe que a palavra escrita fica retida na memória de trabalho por cerca de 1 segundo, e cerca de 4 segundos no caso da palavra falada. Então, como conseguimos processar e compreender tão rapidamente as cadeias de palavras? Por que pessoas com algum tipo de lesão cerebral perdem a capacidade de compreensão ou de produção da linguagem, não necessariamente ambos? Tais perguntas têm feito com que a área de psicolinguística cresça a cada dia, e várias pesquisas, modelos e teorias tentam dar conta delas, graças aos avanços tecnológicos. É importante frisar que o Brasil possui um dos grupos de pesquisadores que mais avança nas pesquisas de psicolinguística, em instituições universitárias renomadas como UERJ, PUC, UFRJ, Unicamp, UFSC, entre outras.

Voltando ao longa-metragem, apesar de não ter sido indicado a nenhuma categoria importante nas premiações, ele tem uma simplicidade lúcida que me encantou. Apesar de parecer um documentário da evolução do quadro de Alzheimer, ele também dá luz a essa dor da perda da memória de forma poética, mostrando o que nos resta de importante quando temos um grande branco. Deixo aqui algumas palavras em inglês retiradas de um trecho do filme para sua reflexão e, quem sabe, uma ida ao cinema? ;-)

  
“All my life I've accumulated memories - they've become, in a way, my most precious possessions. The night I met my husband, the first time I held my textbook in my hands. Having children, making friends, traveling the world. Everything I accumulated in life, everything I've worked so hard for - now all that is being ripped away. As you can imagine, or as you know, this is hell. But it gets worse. Who can take us seriously when we are so far from who we once were? Our strange behavior and fumbled sentences change other's perception of us and our perception of ourselves. We become ridiculous, incapable, comic. But this is not who we are, this is our disease. And like any disease it has a cause, it has a progression, and it could have a cure. My greatest wish is that my children, our children - the next generation - do not have to face what I am facing. But for the time being, I'm still alive. I know I'm alive. I have people I love dearly. I have things I want to do with my life. I rail against myself for not being able to remember things - but I still have moments in the day of pure happiness and joy. And please do not think that I am suffering. I am not suffering. I am struggling. Struggling to be part of things, to stay connected to whom I was once. So, 'live in the moment' I tell myself. It's really all I can do, live in the moment. And not beat myself up too much... and not beat myself up too much for mastering the art of losing."

 


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Um brinde aos filhos do Carnaval – e às filosofias de bar!


Finalmente, estão chegando os festejos carnavalescos deste ano, para a alegria de uns e a tristeza de outros! Nascida no mês do Carnaval, por sorte, sempre gostei da batida do samba, mas não da festa em si. E isso mudou só de uns anos pra cá... Por isso sempre me pergunto como e por que essa metamorfose ocorreu.

Que paixão é esta que o Carnaval desperta em alguns e não em outros? Ou que surge de repente, sem aviso? Será que ela fica latente, pois, no fundo, somos todos filhos do Carnaval (considerando sua origem remota*)? Isso porque os festejos populares sempre foram considerados uma espécie de “renascimento”. No Carnaval, ganhamos uma "segunda vida" que nos libera das regras e autoridades do cotidiano. Sabemos que somos incompletos e provisórios e, por isso, celebramos a renovação com o riso!

Isso me lembra lá longe das aulas de Teoria da Literatura e de Cultura Brasileira na faculdade, nas quais falamos sobre o teórico russo da cultura europeia Mikhail Bakhtin e o antropólogo brasileiro Roberto da Matta. Daí, tentei imaginar como seria uma conversa entre eles numa mesa de bar, na véspera do Carnaval do Rio de Janeiro, só pra ver a que conclusões poderiam chegar sobre o "ser ou não ser" filhos do carnaval?  E começa assim:
 
 

 – Camarada Roberto, dizer que o brasileiro é filho do carnaval me parece muito adequado para atrair estrangeiros curiosos, como eu. Mas sabemos que o Carnaval não é invenção do brasileiro! Há dez mil anos, os povos já realizavam seus cultos com cânticos e danças. Na Idade Média, havia procissões, ritos e cortejos intermináveis. E também a "festa dos tolos", a "festa do asno" e as "festas do templo", com seu rico cortejo de gigantes, anões, monstros e animais.
 
 – Sim, caríssimo Bakhtin! Isso sem falar dos bobos e bufões, que parodiavam as festas civis, as eleições de reis e rainhas e a escolha dos cavaleiros. Se não me engano, você falou sobre isso em A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento.
 
 – Exato, vejo que leu ao menos a primeira página da minha obra! Já fico grato, pois isso é raro, até mesmo na academia. Precisamos continuar mostrando aos “inteligentes contemporâneos” que todos esses ritos e festejos populares para o riso são uma fonte de sabedoria genuína! A grande diferença deles em relação aos ritos oficiais é mostrarem uma visão de mundo diferente, fora da que foi construída pela Igreja e pelo Estado. Nada de piedade, de dogmatismo, de misticismo: tudo é motivo de paródia na vida cotidiana. Aliás, manda descer uma gelada porque vejo que nossa conversa vai ser longa...
 
 – É claro, meu amigo. Vamos brindar a este encontro! Voltando ao seu ponto, o mais interessante é que essa dualidade de mundo que o homem medieval construiu pelo riso sempre esteve presente nas sociedades humanas. A diferença é que não havia valoração diferente entre os aspectos sérios e cômicos da vida. Nos velórios na época da Roma primitiva, chorava-se e debochava-se do defunto ao mesmo tempo. Difícil imaginar isso hoje!
 
– Roberto, é verdade que tudo ficou mais engessado sem o valor do riso. Os eventos oficiais não fazem nada além de consagrar o que está pré-fabricado, as hierarquias, os tabus, que de tão enraizados parecem até verdadeiros! Já os eventos festivos são a verdadeira festa humana, a do avesso, das renovações!
 
– Aí chegamos ao ponto principal, Bakhtin: parece que aqui no Brasil essa ponte com a visão cômica e carnavalesca de mundo não se quebrou. E o Estado não tem saída a não ser oficializar a alegria: são centenas de blocos de ruas, dezenas de escolas de samba! Mesmo que eu não gostasse de Carnaval, não teria como fugir dele.

 – Fato! Aqui o carnaval está vivo como se fosse ontem! Veja quantos pobres fantasiados de nobres, quantas donas de casa vestidas de rainha! É a própria vida que representa e interpreta outra vida, sem cenários e atores. É a segunda vida do povo, que não se exclui na brincadeira: o povo ri de si mesmo, por dentro! 
 
– Aliás, falando do carnaval no Rio, você prefere os blocos de rua ou as escolas de samba?
 
– Roberto, acho que carnaval não tem nada a ver com teatro e espetáculo. Os espectadores não assistem ao carnaval, eles vivem o carnaval desde que surgiu! A festa existe para o povo, sem exceção. E isso se vive tanto nas escolas quanto nos blocos, no morro e no asfalto. Porém me parece que o espetáculo das escolas na Sapucaí não é mais uma festa para todos, e sim para poucos.
 
– É o bendito dilema do esqueleto social brasileiro que fazemos de tudo para esconder: aos medalhões e VIPs, privilégios, ao povo, a lei. Tenho meus questionamentos sobre essa imagem “cordial” e “solidária” que o Brasil quer gritar para o mundo no carnaval... O Brasil esconde muito de sua imagem para si próprio ou acha que tem coisas que não precisa mostrar.

 – Estou sabendo, camarada. Li sua obra Carnavais, Malandros e Heróis e fiquei muito impressionado com sua análise sobre a cultura brasileira! Este é um dos motivos por eu estar aqui hoje: conhecer você e o Brasil pessoalmente. E também um pouco da cultura cervejeira do país. Garçom, pode trazer uma Original mesmo!

 – E está sendo um grande prazer ter essa prosa com você, Bahktin. Quem iria imaginar?

 – Verdade, camarada. Nem eu! Mas sempre sonhei em conhecer o calor do Brasil!

 – As praias? Sim, aqui somos filhos das associações espontâneas como as praias, o carnaval, o futebol... O carnaval estimula essa sensação de que todos somos iguais e que o que vale é o contato familiar e intenso entre as pessoas. e não seu posto social, mas na prática é diferente: "cada um deve saber o seu lugar”, ou “cada macaco no seu galho”, como diz o povo. As engrenagens dessa hierarquia social marcada pela intimidade e os parentescos garante a uns bem nascidos e muito bem relacionados tratamento VIP, impunidade, enquanto o “povo” fica na mão da lei e do racismo à brasileira, e ainda assim é sempre visto como “cordial” e “generoso”... Como toda sociedade colonial, temos grandes conflitos e crises, mas somos avessos a eles. E conflito sempre é tratado como revolta e sufocado com coerção policial ou social violenta. Não há muito espaço para a rebeldia cultural e inovações, meu amigo. Nisso ficamos devendo à Rússia!
  
– Mas, então, o que seria do Brasil sem o carnaval, meu camarada? Quando esse drama da hierarquia iria se resolver senão no reinado de Momo? Como os indivíduos do poder iriam se sujeitar a ser anônimos, e a massa anônima e impotente poderia inverter a situação, com indivíduos deixando de ser marginais e tornando-se finalmente pessoas no drama social: nobres, passistas, cantores, batuqueiros!
 
– Acho que pensamos parecido, Bakhtin: o carnaval é o riso popular que ecoa através dos tempos, aquele riso que não acaba, que não só diverte, mas que escarnece da tentativa de superioridade, da permanência e do poder. Essa é essência da rebeldia, seja ela russa ou brasileira! Como dizem por aí, “ri melhor quem ri, apesar de tudo”. Então, façamos um brinde ao Carnaval!

 
A discussão deu pano pra manga. Em seguida, passaram a falar de outros assuntos, como a corrupção no governo, a crise na Ucrânia e, é claro, o futebol! Beberam um tanto mais e seguiram ébrios rumo a um bloco que passava pela rua. Assim festejaram, pela primeira vez, o carnaval – sem pensar em nada. Apenas pularam abraçados pela força da amizade recém-travada e contagiados pela vibração da massa. Um fantasiado de palhaço e outro de burro. Passaram despercebidos.

 


Nota:

* Na verdade, a origem do carnaval é desconhecida. Há os que atribuem a origem dessa festa aos cultos agrários realizados pelos povos primitivos há dez mil anos antes de Cristo, quando esses povos com cânticos e danças celebravam as boas colheitas. Outros atribuem às festas em homenagem à deusa Ísis e ao Boi Ápis, no Egito antigo.

Na Grécia, o Carnaval foi oficializado, no século VII a.C., nas festas de culto a Dionísio, deus do vinho e dos prazeres da carne, em agradecimento aos deuses pela fertilidade do solo e pela produção.  Essas festas incluíam orgias sexuais e bebidas.

Na Roma antiga, as festas eram em honra ao deus, Saturno (as saturnálias), deus da agricultura e ao deus Baco (bacanais ou dionisíacas), chamado de Dionísio pelos gregos. 

No século IV, com o advento do cristianismo, a Igreja tentou combater várias tradições pagãs, mas com o tempo foi forçada a consentir com essas práticas e, em 590, o Papa Gregório I, oficializou o carnaval no calendário eclesiástico. Em 1545, durante o Concílio de Trento, o carnaval passou a ser reconhecido como uma festa popular.

Embora não haja certeza quanto à origem da palavra “carnaval”, sabe-se que surgiu entre os séculos XI e XII, e deriva do latim carnelevamen (tirar a carne), depois modificada para carne vale (adeus carne). Está ligada à tradição cristã, de não comer carne no período que precede a Quaresma (Paixão de Cristo). Nesse período todos os cristãos deveriam abster-se de carne por quarenta dias, da quarta-feira de cinza até as vésperas da Páscoa, jejuar e fazer penitências. Portanto, o carnaval significava a possibilidade de fugir desses rigores, festejando em liberdade.

 
http://www.historiamais.com/historia_carnaval.htm

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

O ano das (bem mal) ditas palavras no Facebook


Estamos no Natal, momento de reflexões, e só agora pude parar para escrever sobre o turbilhão de palavras bem ou malditas que permearam minha vida e, talvez, a sua, no Facebook e fora dele. Digo de cara que não foi uma reflexão fácil (logo, este texto não será dos mais otimistas). Mas me pareceu urgente fazê-la desse jeito, a seco. Mesmo se tratando de um tema geral, este texto tem pretensões filosóficas e parte de uma teoria da linguagem, então, pode valer a leitura!

Não sei se só eu tive essa impressão, mas, neste ano, falou-se muita bobagem. Sim, fato! Nunca vi tantas brigas no Facebook por conta de partidos políticos, cisões em grupos profissionais, comentários ofensivos em posts pessoais e por aí vai... O mundo nunca foi tão aberto à comunicação, e todos falam o que pensam e têm muitas opiniões – e claro que me incluo nisso! Mas quase tudo o que é dito parece irrelevante, pois não estamos nos comunicando. O fato de haver Internet, computadores e pessoas não gerou uma sociedade em redes, pois “cada pessoa ou grupo se move em culturas de significado e valores distintos e conflitantes”, como diz o filósofo  Luiz Felipe Pondé no livro “A Era do Ressentimento”.

Para o filósofo, vivemos a era do ressentimento, no sentido trazido por Nietzsche. Ser ressentido é algo naturalmente humano: negar a falta (de sentido, certeza, alegria, beleza), por inveja dos deuses imortais. Queremos ser plenos, viver em harmonia, ter direitos, principalmente à felicidade, e nunca fracassar. Daí, a facilidade com que fazemos julgamentos positivos sobre nós mesmos, sobre nossas “causas” e opiniões, encobrindo nossa vaidade e nossas fraquezas. Para ele, "daqui a mil anos, não vão lembrar na nossa época como a época do iPad. Vão lembrar da nossa época como a era do ressentimento. Somos uma civilização de mimados que não é capaz de escutar nenhuma crítica sem achar que é uma questão de ofensa pessoal".

O fato pungente é que o universo é indiferente aos nossos desejos, não temos direitos garantidos a nada e sempre há alguém melhor ou mais belo do que nós. E que também estamos cada vez mais sós nesse narcisismo delirante, cercados de fotos e celulares nos acompanham sem cessar nessa solidão coletiva. O consumo e as festas até diminuem um pouco a sensação, pois a parceria do uso é muito mais garantida que a parceria dos vínculos humanos, com suas ambivalências e confusões. Mas, afinal, será que ainda resta algo que nos une em plena sociedade do "eu"?

Há sempre as PALAVRAS. Para Grice, o princípio geral que rege a comunicação é a COOPERAÇÃO. Não se deve entender cooperação como uma visão idealizada da troca verbal como um evento harmonioso. Cooperação no sentido de que cada enunciado tem um objeto ou uma finalidade implícitos, ou seja, o falante leva em conta o desenrolar da conversa com base na cooperação da interpretação do que diz. Apesar de a linguagem humana ser o reino da discórdia e do engano, características tão humanas e contemporâneas, sem a cooperação para a interpretação dos enunciados nem mesmo o conflito pode ocorrer.

Para isso, voltemos ao narcisismo e à teoria da Face (interessante coincidência com o nome Facebook), de E. Goffman, que gerou trabalhos interessantes sobre polidez linguística nos estudos da Pragmática. A polidez está associada à autoimagem pública de qualquer indivíduo e é um recurso de dissimulação do afeto negativo. Partindo desse princípio, "há sempre um esforço pela preservação da face, que se torna, então, condição da interação" (Martelotta. M.,Manual de Linguística, p. 97).

Conforme Goffman, temos uma face social defensiva, que se preserva ao falar, e uma face protetora, que salva a face do outro por meio do respeito e da polidez. Brown e Levinson, que deram continuidade aos estudos de Goffman, falam da face negativa (desejo de preservação pessoal, privacidade, não imposição) e da face positiva (desejo de ser apreciado e aprovado). Os elementos que mantêm a face social são o orgulho, a honra e a dignidade. Já gafes, insultos e ofensas são ameaças à face.

Por exemplo, por que fazemos um pedido a alguém usando “por favor”? Porque estamos invadindo a privacidade da pessoa e ameaçando sua face. Isso não valeria também para qualquer interação social pública? Vale a pena fazer uma reclamação ofensiva com alguém pelo Facebook? O que é colocado em risco? Isso não acabará depondo contra você, em último caso? Vale a pena impor sua opinião em vez de tentar ser amigável ou dar opções para que o outro se sinta livre para refletir ou manter as próprias opiniões, mesmo não concordando com você? Adianta se expor ou a alguém em uma rede pública e depois se arrepender da privacidade perdida? Qual o custo de tudo isso? 
 
Leech compreende a polidez em termos de máximas de adequação social, quais sejam:

1-      Máxima do tato: minimize o custo para o outro, critique de forma indireta (a mesa está um pouco suja... em vez de limpe esta mesa!)

2-      Máxima da generosidade: maximize o custo para si próprio (posso sim fazer esse favor pra você)

3-      Máxima da aprovação: maximize a honra do outro (se o Brasil não for campeão, azar da Copa)

4-      Máxima da modéstia: minimize seu orgulho

5-      Máxima da concordância: minimize a desavença entre as pessoas

6-      Máxima da simpatia: aproxime-se de quem te ouve, ouça-o

Bom, nada disso é fácil de pensar no calor do momento. Poucos de nós sequer se preocupam com as próprias faces, que dirá com as do outro. Mas a polidez é exatamente esse esforço de amadurecimento, de deixar de ser um ressentido que sabe tudo de si e do mundo para ser alguém disposto a dialogar. E, em casos de ameaça, usar recursos para minimizar as consequências negativas da exposição. Claro que tudo depende do contexto, das situações reais que enfrentamos, das diferenças culturais, de aspectos emocionais. Outro fator muito importante é o grau de intimidade que se tem com o interlocutor: não somos necessariamente "íntimos" porque somos amigos de alguém no Facebook e determinados comentários podem não deixar o outro tão à vontade. Mas se, por outro lado, não tentarmos usar as melhores palavras, a comunicação não ocorre e nada mais nos une – apenas a covardia e a falsa sensação de termos uma importância maior do que temos no universo.

E, retomando o espírito do Natal, há virtudes que nos unem e que são invisíveis para os que não as usam. A mais interessante delas seria a esperança que os outros nos emprestam, nos ajudando a dar sentido a nossas vidas. Em encontros não motivados por afinidade cultural, objetivo profissional, crenças em comum, não há também competição ou identificação, apenas pessoas com o simples desejo de serem felizes, falarem de seus sonhos e aflições mais profundos. Estar aberto ao mundo e ao diálogo no Facebook e fora dele nos torna pessoas minimamente maduras e, quiçá, felizes. Benditas sejam as palavras!
 
 

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Um conto leve para alegrar o seu dia, tradutor/intérprete!

"Aproveitando a deixa sobre o dia do Tradutor, que se comemora hoje, desejo que São Jerônimo ilumine você para encontrar, também, na vida, os significados precisos para combinar, na vastidão das combinações, as opções mais perfeitas do bem viver."

Abro este breve post em comemoração ao Dia dos Tradutores e Intérpretes "roubando" o primeiro parabéns que recebi hoje, do meu padrinho, e estendo-o a todos os colegas que encontram na profissão um caminho que combina com seu bem viver, seus desejos e suas aspirações.

Mas não roubei como em uma das histórias de "Tradutor Cleptomaníaco", de Dezsö Kosztolányi, autor húngaro, que fala de forma bem-humorada sobre o tradutor que não cumpre o primeiro mandamento da (boa) tradução: não omitirás (ou roubarás). Os outros seriam: não adicionarás e não mudarás. Apesar de sempre haver controvérsias quanto ao que seja uma "boa tradução", acho que esses princípios básicos nos ajudam ser vistos como profissionais éticos, nos quais se pode confiar.

Mas fica aí um conto leve para alegrar o seu dia, tradutor/intérprete. Parabéns! ;-)


O TRADUTOR CLEPTOMANÍACO e outras histórias de Kornél Esti
Dezsö Kosztolányi
Tradução do original húngaro Ladislao Szabo


Falávamos de escritores e poetas, de velhos amigos, com que começamos a jornada, mas que depois se distanciaram e desapareceram. De quando em quando lançávamos um nome ao ar. Quem se lembra dele? Balançávamos a cabeça e um pálido sorriso se esboçava em nossos lábios. No espelho de nossos olhos surgia um rosto esquecido, uma carreira e uma vida perdidas. Quem sabe algo sobre ele? Viverá ainda? O silêncio respondia à pergunta. Neste silêncio, a coroa de flores de sua glória farfalhava, como farfalhavam as folhas no cemitério. Calávamo-nos.


Ficamos assim durante minutos, até que alguém evocou o nome de Gallus. — Pobre sujeito — disse Kornél Esti—, encontrei-o anos atrás - , mas já faz sete ou oito anos, sob condições muito tristes. Foi quando lhe aconteceu algo relacionado com uma novela policial, algo que também havia sido uma história policial, a mais emocionante e mais dolorosa que já vivi. Porque vocês o conheciam, um pouco, ao menos. Era um garoto talentoso, eletrizante, intuitivo, consciencioso e culto também. Falava várias línguas. Sabia inglês tão bem, que dizem que o príncipe de Gales tomara aulas particulares com ele. Havia morado quatro anos em Cambridge.


Mas tinha um defeito fatal. Não, não bebia. Mas surrupiava tudo que estava ao alcance de sua mão. Roubava como uma ave de rapina. Tanto lhe fazia se se tratava de um relógio de bolso, chinelos ou um enorme duto para chaminé. E não se preocupava também com o valor dos artigos roubados, nem com o seu volume e dimensões. Geralmente não se importava com a sua utilidade. Seu prazer consistia simplesmente em fazer aquilo que queria: roubar. Nós, os seus amigos mais próximos, nos esforçávamos para trazê-lo à razão. Falávamos à sua alma, carinhosamente. Repreendíamos e ameaçávamos. Ele concordava conosco. Prometia sempre lutar contra sua natureza. Mas a razão não vencia, sua natureza era mais forte. Sempre recaía.


Quantas vezes desconhecidos não o repreenderam, e não o humilharam em lugares públicos, quantas vezes não o flagraram, e, nessas ocasiões, tínhamos de tomar atitudes inacreditáveis para minimizar as conseqüências de seus atos. Certa vez, porém, no expresso para Viena, foi surpreendido por um comerciante morávio ao aliviá-lo de sua carteira, e entregue à polícia na estação mais próxima. Trouxeram-no algemado para Budapeste.


Tentamos salvá-lo de novo. Vocês, que escrevem, sabem que tudo é decidido pelas palavras: tanto o valor de um poema como o destino de um homem. Tentamos provar que ele era um cleptomaníaco e não um ladrão. Aquele que conhecemos geralmente é cleptomaníaco. Aquele que não conhecemos geralmente é ladrão. O tribunal não o conhecia; assim foi qualificado — ladrão, e condenado a dois anos de prisão.


Depois de libertado, numa sombria manhã de dezembro, próximo ao Natal, apareceu-me, esfomeado, esfarrapado. Jogou-se a meus pés. Implorou que eu não o abandonasse, que o ajudasse, que lhe arrumasse trabalho. Escrever sob seu próprio nome estava fora de qualquer cogitação. Nada sabia fazer, porém, senão escrever. Procurei então um editor honesto e humano, recomendei-o, e no dia seguinte o editor incumbiu-o da tradução de uma novela inglesa de detetives. Era um daqueles lixos com os quais nós não queremos sujar as mãos. Não o lemos. No máximo o traduzimos, usando luvas. Seu título — até hoje me lembro —, “O misterioso castelo do conde Vitsislav”. Mas que importava? Fiquei feliz por ajudá-lo, ele feliz por poder comer e assim começou o trabalho. Trabalhou com tanto afinco que em duas semanas — muito antes do prazo — entregou o manuscrito.


Fiquei extremamente surpreso quando, passados alguns dias, o editor me comunicou que a tradução do meu protegido era totalmente inutilizável, e por isso não estava disposto a pagar nenhum vintém. Não entendi bem. Fui até lá de táxi.


O editor, sem nada dizer, entregou-me o manuscrito. Nosso amigo o datilografara com capricho, numerara as páginas, até as prendera com uma fita com as cores nacionais. Isso era muito dele, pois — acho que já disse —, em questões de literatura, era preciso e escrupulosamente meticuloso. Comecei a ler o texto. Soltei um grito de admiração. Frases claras, mudanças engenhosas, montagens lingüísticas espirituosas se sucediam, muito mais digna que o original. Espantado, perguntei ao editor que defeito tinha encontrado. Ele me entregou original inglês, de forma tão silenciosa quanto fez com o manuscrito, e pediu-me para comparar os dois textos. Por meia hora, mergulhei alternadamente no original e no manuscrito. Ao final, levantei-me consternado. Declarei que ele estava com toda a razão.


Por quê? Nem tentem adivinhar. Estão enganados. Não tentou contrabandear o texto de um outro original. Era realmente “O misterioso castelo do conde Vitsislav”, numa tradução fluente, artistíca, e por vezes poética. Estão novamente enganados. O texto não continha nenhum escorregão. Afinal, ele sabia inglês e húngaro perfeitamente Parem de tentar. Disso vocês nunca ouviram falar. A mancada foi outra. Totalmente outra.


Eu também descobri aos poucos, gradualmente. Prestem atenção. A primeira  frase do original inglês dizia assim: “As trinta e seis janelas do velho castelo, desgastado pelo vento, brilhavam. No primeiro andar, na salão de baile, quatro lustres de cristal iluminavam luxuosamente. Na tradução húngara estava: “As dezessete janelas do castelo, desgastado pelo vento, brilhavam. No primeiro andar, dois lustres de cristal iluminavam luxuosamente Arregalei meus olhos e continuei a leitura. Na terceira página, o escritor inglês dizia: “Com um sorriso irônico, o conde Vitsislav abriu sua carteira recheada e atirou a quantia pedida, mil e quinhentas libras...” Isso foi interpretado da seguinte forma pelo tradutor húngaro: “Com um sorriso irônico, o conde Vitsislav abriu sua carteira e atirou a quantia pedida, cento e cinqüenta libras...”


Tive uma péssima premonição, que — felizmente se tornou uma certeza nos minutos seguintes. Mais abaixo, no fim da terceira página, li na edição inglesa: “A condessa Eleonora estava sentada num dos cantos do salão de baile, vestida para a noite, usando as velhas jóias da família: tiara de diamantes, herdada da sua tataravó, esposa de um príncipe alemão;sobre seu colo de cisne, pérolas verdadeiras de brilho opaco; seus dedos quase se enrijeciam com os anéis de brilhante, safira, esmeralda.


O manuscrito húngaro, para minha grande surpresa, assim trazia: “ A condessa Eleonora estava sentada num dos cantos do salão de baile, vestida para a noite...” Sem mais. A tiara de diamantes, o colar de pérolas, os anéis de brilhante, safira e esmeralda haviam desaparecido. Compreendem o que fizera esse infeliz escritor, merecedor de um futuro melhor? Simplesmente  roubou as jóias de família da condessa Eleonora, e, com a mesma imperdoável leviandade, roubou até o simpático conde Vitsislav, deixando das suas mil e quinhentas libras apenas cento e cinqüenta,e da mesma forma surrupiou dois dos quatro lustres de cristal, e desviou vinte e quatro das trinta e seis janelas do velho castelo desgastado pelo vento. Tudo começou a girar ao meu redor. Minha surpresa só aumentou quando constatei, sem nenhuma dúvida, que essa determinação percorria todo o seu trabalho. Por onde sua pena de tradutor passasse, sempre causava prejuízo aos personagens, mesmo que só se apresentassem naquele capítulo, e, sem respeitar móvel ou imóvel, atropelava a quase indiscutível sacralidade da propriedade privada. Trabalhava de várias maneiras. Na maioria das vezes, os objetos desapareciam sem mais nem menos. Aqueles cofres, talheres de prata, cuja missão era enobrecer o original inglês, não os encontrei em nenhum lugar no manuscrito húngaro. Em outros casos só tirava uma parte, a metade ou dois terços. Se alguém mandava o criado levar cinco malas para a cabine do trem, ele só mencionava duas; sobre as outras três silenciava sorrateiramente. De todos os casos, para mim, o pior — porque isso decididamente mostrava má intenção e falta de hombridade — era que com freqüência trocava as pedras e metais preciosos por outros sem nobreza e sem valor; a platina por lata, o ouro por latão, o diamante por zircotina ou vidro.


Despedi-me do editor, cabisbaixo. Por curiosidade, pedi emprestado o manuscrito e o original inglês. Como estava intrigado pelo verdadeiro enigma dessa novela policial, continuei em casa minha investigação, e fiz um balanço completo dos artigos roubados. Trabalhei sem parar da uma e meia da tarde até seis e meia da manhã. Descobri, finalmente, que nosso desvirtuoso colega escritor apropriou do original inglês, durante a tradução, ilegal e indecentemente, 1.579.251 libras esterlinas, 177 anéis de ouro, 947 colares de pérola, 181 relógios de bolso, 309 brincos, 435 malas, sem falar das propriedades, florestas e pastos, castelos de príncipes e barões, e outros objetos menores, lenços, palitos de dente, campainhas, cuja listagem seriamuito comprida e talvez inútil. Onde colocou todos esses móveis e imóveis que afinal só existiam no papel, no reino da imaginação; qual era a razão do seu furto; a investigação iria muito longe e assim melhor nem especular. Mas tudo isso me convenceu de que ele ainda era escravo de seu vício criminoso, ou da doença, e não existia nenhuma esperança de cura, e não merecia ser amparado pela sociedade honesta. Retirei minha proteção devido à minha indignação moral. Entreguei-o ao destino. Depois, nunca mais ouvi falar dele.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Ressaca de congresso: cadê meus pares?


Assim como quem viaja e, ao retornar, já está planejando a próxima aventura, quem é picado pelo “congress bug” fica com alguns sintomas quando ele acaba. Após este último congresso da ABRATES, em setembro, percebi que as diversas experiências vividas ali geraram uma grande saudade coletiva na maioria, pelos comentários dos colegas em grupos de tradução. Uma saudade que, em tese, só passará no próximo ABRATES, em São Paulo. E talvez nem assim.

Para quem já foi a algum congresso, conheceu muitas pessoas especiais, levou consigo várias ideias preciosas e teve a chance de reviver tudo isso, essa saudade só tende a aumentar e a ir se transformando numa uma espécie de nostalgia, ou “ressaca de congresso”. Em resumo, aquele mal-estar provocado pelo afastamento dos nossos mais novos e antigos colegas, por ter passado um fim de semana praticamente “em claro”, dada a intensidade das trocas e “libações” que podem ter contribuído, literalmente ou não, para essa ressaca que nos pega no dia seguinte ao acordarmos para trabalhar sozinhos.

E como lidar com isso agora? Bom, mais do que manter o contato virtual, parece que existem formas de nos mantermos conectados pelo trabalho para crescermos juntos. Uma sugestão de parceria que, além de aproximar as pessoas, contribui para que todos cresçam cada vez mais, é a prática de feedback entre pares, uma proposta de melhoria contínua para intérpretes apresentada pelas colegas Melissa Mann, Milessa Nakayama, Julia Aidar, Rosana Gouveia e Daniele Fonseca.

O elemento interessante da proposta, que parece se aplicar também à tradução, é que a formação de grupos de prática e avaliação conjunta solidifica a afinidade profissional e pessoal entre aqueles que já se conhecem, ou dá chances para que essas afinidades se manifestem e se desenvolvam ao longo do tempo. E, mais importante: elas contribuem para o nosso autoconhecimento e crescimento como profissionais e seres humanos.

 A ideia de “crowdstudying” entre intérpretes é baseada na escolha conjunta dos temas de estudo, com uma organização prévia que facilita a gestão participativa, pois todos são responsáveis por liderar em algum momento. Para começar, cito inicialmente um resumo da ideia que está disponível no site do Congresso: “A partir de gravações de interpretação simultânea, seguidas de análise e feedback dos colegas do grupo, todos passaram a trabalhar áreas ou técnicas específicas que afetavam seu desempenho. Criou-se um ambiente verdadeiramente colaborativo, onde o crescimento profissional do outro é bem-vindo e estimulado com críticas objetivas e justificadas, que são consequentemente recebidas como oportunidade ímpar de melhoria, concretizada na vida profissional de todos”.

Durante a palestra, as participantes mostraram as regras e os procedimentos básicos para o exercício. Todos os dados importantes (tema, objetivo, datas, instruções, contatos, modelo de avaliação) são enviados ao grupo de e-mail (Google Group, Hangouts), formado por 4 a 6 participantes com níveis variados de experiência. O vídeo escolhido para gravação, com 15 a 20 minutos de duração, é disponibilizado em uma pasta de compartilhamento de arquivos (Google Drive, Dropbox). Um glossário comum é alimentado por todos enquanto se preparam para gravar a interpretação da palestra. Após realizarem a gravação (a primeira, não vale se regravar nesse momento, só após os feedbacks para trabalhar um aspecto de melhoria por vez), os participantes a carregam na pasta do grupo e avisam aos outros. Em seguida, cada participante prepara o feedback para dois colegas, conforme a grade de revezamento estabelecida. Após o envio dos feedbacks, o grupo marca uma reunião (por Skype ou Hangouts) para conversar sobre os feedbacks, trabalhar os aspectos linguísticos e planejar os próximos exercícios.

Esse processo de estudo favorece bastante a igualdade nas diferenças, as críticas construtivas com base em critérios e a amizade entre os colegas, afinal, "o feedback pode ser um gesto fraterno", conforme as apresentadoras colocaram. As conclusões a que chegaram, e acho que nisso todos concordamos, é que “vale a pena investir em si mesmo”, e esse investimento não se faz sozinho, pois sempre precisamos do outro para crescer.

Em um mundo profissional cada vez mais competitivo e individualista, creio que nós, tradutores e intérpretes, temos um diferencial em relação aos outros nichos: sabemos que o outro existe e somos algo porque o outro (autor ou orador) é. Trabalhar pelo “outro” acaba sendo uma forma de nos realizarmos e sermos. E como poderíamos chegar aonde chegamos hoje sem o “outro”, sem as parcerias e as trocas com os colegas? Tudo isso tem um valor imaterial que não podemos medir, somente agradecer. Fica então meu agradecimento pessoal a todos que contribuíram para o meu crescimento, para a realização deste incrível congresso e dos próximos que nos aguardam!

sábado, 6 de setembro de 2014

Missão dada, missão cumprida: a interpretação na luta pelos direitos humanos

Minha primeira opção ao prestar vestibular foi o Jornalismo. Sempre tive paixão pela escrita e a leitura e, além disso, sempre tive vontade de participar dos fatos sociais e de dar voz a diferentes culturas, principalmente as que não são ouvidas. Ainda assim, por diferentes motivos, acabei optando por Letras. Mas, após passar recentemente pelo meu "batismo de fogo" em interpretação, fazendo uma trabalho voluntário de simultânea bilíngue (inglês>português e vice-versa) em uma reunião com os diretores de uma instituição de direitos humanos e membros de movimentos da sociedade civil, acredito que encontrei aquilo que buscava. Parece realmente que Deus “escreve torto por linhas certas”. Assim como nós, intérpretes.

Quem nunca "escreveu torto" ou deu uns escorregões pela vida profissional? Esqueceu-se de palavras-chave do glossário bem quando elas se repetiam na boca do palestrante. Ou mesmo inventou traduções aproximadas para termos muito específicos da cultura nacional ou estrangeira? Palavras como “arrastão”, “gato de luz”, “tapioca”, “pagode”, por exemplo, precisam antes ser explicadas do que traduzidas. E, além delas, há jargões técnicos do direito ou da estrutura prisional brasileira que aparecem bastante em encontros de direitos humanos. Por maior que seja o preparo, a construção de glossários e a troca com nossos pares, às vezes ficamos com a sensação ruim quando o máximo que conseguimos é "escrever torto”. Mas também ficamos com uma sensação boa quando conseguimos interpretar algo extremamente difícil de forma excelente.

Na verdade, nesses encontros, fazemos muito mais do que cobrir lacunas linguísticas, mas permitir que pessoas de mundos totalmente diferentes se entendam ao entrar em contato pela primeira vez. E isso tem um valor tão grande que os pequenos escorregões acabam ficando em segundo plano. Mas precisamos também nos responsabilizar por eles e buscar soluções, pesquisar, estudar, para que contribuam para a melhora em nossas próximas atuações.
Acredito que na vida existem “linhas certas”, ou seja, diferentes caminhos ou atalhos para chegarmos aonde queremos, de maneira justa e solidária. Ainda assim, muitos teimam em entortar as linhas, ou seja, fazer tudo errado e culpar os outros. Este é o caso de forças de segurança, que cometem massacres contra a população pobre ou contra os cidadãos que reivindicam seus direitos, culpabilizando-os por sua condição social, etnia ou qualquer outro motivo que justifique a violência desmedida.

Por isso, foi muito difícil para mim, como intérprete, segurar a emoção ao ouvir relatos mais contundentes. Ainda assim, a capacidade de controlar emoções é essencial para fazermos o nosso trabalho. Considero que nosso mérito é possibilitar que a voz desses sujeitos seja amplificada, alcançando ouvintes de diferentes partes do mundo. E, para isso, é muito importante o apoio psicológico, para que tais emoções não causem traumas indiretos, conforme vemos em casos de intérpretes que atuam em tribunais de guerra e situações militares.

Nesse encontro, tive o prazer de ver pessoas que tiveram a opção de desistir diante das injustiças ou lutar para mudá-las. E escolheram a segunda opção, usando uma arma que tem poder de fogo ainda maior que os fuzis: a palavra.  Se algo de fato for feito por essas pessoas e se eu tiver contribuído minimamente para isso, terei uma sensação de realização muito maior: missão dada, missão cumprida!



segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Se o (seu) mundo fosse acabar, me diz o que você fa(la)ria?


Imagine se, de repente, ninguém mais te entendesse? Seus filhos não quisessem mais ouvir suas histórias nem responder às suas perguntas. Seus segredos de amor ao pé do ouvido não tivessem mais efeito. Ninguém risse mais das suas piadas. Sua música não fosse mais tocada. Você estaria em um imenso vazio até que o mundo quisesse restabelecer a comunicação, certo? Ou, quem sabe, já não estivesse morto sem saber, como no filme O Sexto Sentido?

Talvez seja essa a sensação que as pessoas têm quando suas línguas maternas deixam de ser faladas: um profundo vazio existencial. Podemos pensar, então, que quando uma língua se silencia, um mundo acaba, pois é a língua que serve de suporte à nossa identidade e cultura, nossa riqueza interior e nosso conhecimento de mundo. E, infelizmente, esse será o caso de centenas de pessoas no mundo todo nos próximos 90 anos. 




Na palestra da linguista Kristine Stenzel, no Museu do Índio, como parte do curso Dimensões das Culturas Indígenas, a mensagem foi clara: o patrimônio linguístico mundial está ameaçado e muitas frentes de preservação precisam acontecer logo. Estima-se que haverá a perda de 50% a 90% das 6.000 línguas vernáculas restantes no mundo só neste século. Isso porque os processos de mudança e perda linguística, que são naturais e graduais, avançaram em um ritmo galopante nos últimos 500 anos, com o extermínio das populações étnicas, as migrações, as guerras, a supervalorização das línguas oficiais, a desvalorização de culturas minoritárias e a introjeção da "fobia de si" pelos próprios falantes, que abandonaram suas línguas.



Acredita-se que eram faladas 1.200 línguas no Brasil antes do descobrimento. Hoje, restam cerca de 160, e os indígenas representam 3% da nossa população (300 a 400 mil pessoas). Desse total, apenas 15% dos grupos têm mais de 1.000 falantes. Mas, seja qual for o número de falantes, o fato é que todas as línguas indígenas brasileiras estão ameaçadas de extinção, porque qualquer pequena mudança pode abalar a estrutura desses grupos, alterando, assim, sua situação linguística.



Por outro lado, estão surgindo cada vez mais programas de estudo e documentação de LIBs (Línguas Indígenas Brasileiras). Para quem não sabe, somente no Rio de Janeiro, temos o PRODOCLIN (Projeto de Documentação de Línguas Indígenas), no Museu do Índio, e a Pós-Graduação em LIBs, no Museu Histórico Nacional/UFRJ, por exemplo.


A própria Kristine, da UFRJ, coordena um incrível projeto de documentação das línguas Kotiria e Waikhana no município de São Gabriel da Cachoeira, onde há quatro línguas co-oficiais: o português e três línguas indígenas. Esse movimento em prol da revitalização linguística está ganhando forças no mundo inteiro, e, principalmente, dentro das sociedades indígenas, que buscam apoio para resgatar seus idiomas e práticas culturais, além de capacitação para atuar como professores e documentadores. 


Acho que o segredo dessa força de sobrevivência dos indígenas pode estar na famosa pergunta do Paulinho Moska: se o (seu) mundo fosse acabar, me diz o que você faria? Somente nos colocando no lugar dos povos em declínio, nós, que falamos línguas “seguras”, poderíamos imaginar como é estar do outro lado. Mas , na última Flip, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro mencionou a possibilidade de a civilização atual, com seu sistema econômico depredador, entrar em um colapso geral em poucos anos. 

Ele proferiu a frase de efeito ao lado que, apesar de contrariar as estatísticas, fala de um modo de vida que realmente funciona: “O mundo deles acabou há cinco séculos e eles estão aí, sobrevivendo, criando, inventando novas formas de expressão. Eles poderão nos ensinar como é possível ser feliz sem cartão de crédito, TV de plasma, computador. Sem essa civilização cuja existência depende da destruição de tudo a sua volta.”

Se o mundo fosse acabar, eu estaria do lado de quem já perdeu o seu mundo e o recuperou, ao menos dentro de si, ou que continua lutando para mantê-lo e revitalizá-lo junto à sua comunidade. Essa sabedoria indígena indica que é possível ir mais longe quando há autodeterminação e que o valor imaterial da cultura, expressa e enraizada nas palavras, é o único valor que não se perde, pois dá sentido à vida. E você, se o  (seu) mundo fosse acabar, o que você fa(la)ria?



sexta-feira, 25 de julho de 2014

Não sei, só sei que não foi assim... (diria Ariano)

“Não sei, só sei que foi assim” é o bordão de Chicó, o covarde protagonista de “O Auto da Compadecida” que, com o esperto João Grilo, consegue driblar a pobreza aplicando golpes e inventando histórias. O Auto da Compadecida foi traduzido e representado em pelo menos em nove idiomas, entre eles o polonês, o tcheco e o hebraico. Daí, me pergunto: como toda essa gente se identificou com uma obra tão local (e difícil de traduzir)?

Talvez seja pela comicidade, pelo jogo cênico das situações ou pelos sedutores traços da cultura ibérica e medieval, presentes na cultura popular nordestina, que foi exaltada e resgatada na obra de Ariano Suassuna. Seu universo ficcional está fincado na realidade nordestina, mas é capaz de levar leitores de várias partes do planeta a um verdadeiro “mundo mítico”, como ele mesmo dizia.

Mitologia, musicalidade, comicidade, filosofia humanista, religião, esperança... esses componentes estão no repertório de autores de agradaram às massas e ao cânone, como Shakespeare. Como não reconhecer em Ariano o mesmo domínio dos ritmos e metros, a ampla capacidade de pesquisa da arte popular e o equilíbrio ao reelaborar esse material com refinamento artístico? Ou, se o valor da obra é reconhecido, por que duvidar de que ele de fato fosse um apaixonado pela cultura popular? Estaria representando um personagem de si mesmo como o pai dos pobres, como mais um aplicador de golpes do seu universo mítico?

Não sei, não, mas acho que ele acaba sendo vítima daqueles que “olham para cima, para o hemisfério Norte em busca de referência, enquanto brota daqui uma cultura riquíssima.” Para homenagear esse artista polêmico, e por isso grandioso, seguem alguns recortes que nos mostram a força da sua palavra e, principalmente, da sua personalidade:

“Eu sou um apaixonado pela vida e eu não fui, como todos nós, eu não fui consultado antes de nascer, se eu queria ou não. Mas se a consulta me fosse feita hoje, eu queria nascer 100 vezes”. (2007)





Revista Fórum em www.revistaforum.com.br

Fórum – Seu Ariano, em muitos textos seus e também no Auto da Compadecida, muitos trechos que o senhor utiliza são de cantorias e de literatura de cordel. Fale um pouco dessa sua profunda relação com a cultura popular da sua região.


Ariano Suassuna – Assisti ao primeiro cantador quando ainda era menino lá na minha terra, em Taperoá, sertão da Paraíba. E naquele dia participava um grande cantador, chamado Antonio Marinho, que, além dos improvisos, cantou um folheto, escrito por ele, que me causou grande impressão. Depois, me lembro de um dia na biblioteca de meu pai. Ele era um grande leitor, sabia versos de cor e era amigo de um escritor cearense chamado Leonardo Motta, que foi um dos pioneiros da documentação sobre os poetas populares. E lembro que estava olhando a biblioteca de casa e vi que ele tinha dedicado um dos seus livros ao meu pai. Dedicou a seis pessoas, entre as quais o meu pai, que é citado como uma das fontes que comunicaram versos a ele. Então, você imagine o orgulho que eu tinha. Eu na biblioteca, pego aquele livro e meu pai está lá como personagem. Foi aí que comecei a ver que aqueles cantadores, que eu tinha ouvido com tanta alegria, eram assunto de livros, que o que eles faziam eram coisas importantes. Ficou sacralizado pra mim o cantador. Não é por acaso, talvez, que quando fui escrever O Auto da Compadecida me baseei em três folhetos. Estão todos os três citados no livro de Leonardo Motta. Foi O Enterro do Cachorro, de Leão de Gomes de Barros, O Cavalo que Defecava Dinheiro, que também acho que é dele, e o Castigo da Soberba, que é dado como de autoria de dois autores folclóricos, Anselmo Vieira de Souza e Silvinho de Pirauá. Eu me baseei nesses três folhetos para fazer o Auto da Compadecida.  


DISCURSO DE POSSE DE SUASSUNA NA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, em http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=13527&sid=305



(...) Quando eu quis que o uniforme que uso agora fosse feito por uma costureira e uma bordadeira do Recife, Edite Minervina e Cicy Ferreira, estava levando em conta a distinção estabelecida por Machado de Assis e uma frase de Ghandi que li aí por 1980, e que me impressionou profundamente. Dizia ele que um indiano verdadeiro e sincero, mas pertencente a uma das duas classes mais poderosas de seu país, não deveria nunca vestir uma roupa feita pelos ingleses. Primeiro, porque estaria se acumpliciando com os invasores. Depois, porque estaria, com isso, tirando das mulheres pobres da Índia um dos poucos mercados de trabalho que ainda lhes restavam.
            A partir daí, passei a usar somente roupas feitas por uma costureira popular e que correspondessem a uma espécie de média do uniforme de trabalho do brasileiro comum. Não digo que fiz um voto, que é coisa mais séria e mais alta colocada nas dimensões de um profeta, como Gandhi, ou de um monge, como Dom Marcos Barbosa. Não fiz um voto; digamos que passei a manter um propósito. Não pretendo passar pelo que não sou. Egresso do patriarcado rural derrotado pela burguesia urbana de 1889, 1930 e 1964, ingressei no patriciado das cidades como o escritor e professor que sempre fui. Continuo, portanto, a integrar uma daquelas classes poderosas, às quais fazia Gandhi a sua recomendação. Sei, perfeitamente, que não é o fato de me vestir de certa maneira, e não de outra, que vai fazer de mim um camponês pobre. Mas acredito na importância das roupagens para a liturgia, como creio no sentido dos rituais. E queria que minha maneira de vestir indicasse que, como escritor pertencente a um País pobre e a uma sociedade injusta, estou convocado, “a serviço”. Pode até ser que o País objete que não me convocou. Não importa: a roupa e as alpercatas que uso em meu dia-a-dia são apenas uma indicação do meu desejo de identificar meu trabalho de escritor com aquilo que Machado de Assis chamava o Brasil real e que, para mim, é aquele que habita as favelas urbanas e os arraiais do campo. (...)


José Celso Martinez Corrêa, dramaturgo: 
(http://oglobo.globo.com/cultura/livros/personalidades-lamentam-morte-de-ariano-suassuna-13355795#ixzz38Wl30FHR)

"Ariano nasce em meio à aristocracia rural de Recife, e então ele relaciona com intensa paixão esse passado culto com toda a cultura popular. Essa é a importância dele e do seu teatro. Hoje observamos um teatro cada vez mais desligado do povo, por conta de todo esse colonialismo cultural. Então as pessoas olham para cima, para o hemisfério Norte em busca de referência, enquanto brota daqui uma cultura riquíssima. Então ele representa essa aristocracia rural transmutada pela cultura popular. Uma confrontação entre forças correntes que o atravessam e acabam se transando. O 'Auto da compadecida' é uma obra-prima, um clássico da literatura mundial, que fez emergir toda a potência do popular, assim como fizeram os grandes. Ele era um nobre artista, como foi Tolstói, está no DNA de toda a humanidade, assim como Cervantes. Quando alguém desse tamanho morre, imediatamente se torna imortal. E a partir daí, no curso da História, Ariano vai aparecer e sumir, aparecer e sumir, aparecer e sumir..." 


sábado, 12 de julho de 2014

Maracandanças

Com a esperada final no Maracanã, a Copa no Brasil vai chegando ao fim. O resultado, infelizmente, não era o esperado por nós, e a seleção e a equipe técnica terão muito o que pensar daqui pra frente para tentar reassumir sua posição na elite no futebol. Mas e para o time de tradutores/intérpretes brasileiros, quais foram os saldos positivos e negativos do evento? E o que ganhamos com essa experiência como povo afinal?

O esporte e a língua são umas das poucas coisas que realmente unem o brasileiro em meio à diversidade cultural. Mas traduzir esportes não é uma tarefa fácil como se pensa. Segundo o tradutor Luciano Monteiro, em Found in Translation, “o Brasil é um país com duzentos milhões de técnicos de futebol. Todos acham que são especialistas”. Logo, qualquer falha que deflagre que o tradutor/intérprete é inexperiente ou não entende bem do assunto imediatamente salta aos olhos e dói nos ouvidos da audiência. E mais: a linguagem, apesar de todo o seu jargão técnico, precisa ser acessível e interessante para todo tipo de público. Isso não é nada fácil de fazer, ainda mais para quem está acostumado a interpretar em conferências formais ou traduzir textos muito técnicos.

Além disso, o menor erro de interpretação pode até mesmo instilar animosidades entre os oponentes, como ocorreu na Copa de 2010, em que “We are going for a win” (Vamos jogar em busca da vitória) foi traduzido como “We are going to win” (Vamos vencer). Em outra ocasião, narrada em Found in Translation, quando um repórter perguntou a Diego Maradona sobre seu hábito de abraçar e beijar os jogadores, Maradona entendeu que a pergunta insinuava que ele fosse homossexual e respondeu se defendendo. Embora o intérprete tenha traduzido a pergunta corretamente, acabou sendo culpado pelo incidente.

Muito se falou das experiências negativas com interpretação nas coletivas de imprensa, seja por questões técnicas ou pela contratação de profissionais não especializados, mas as boas experiências não ganharam o mesmo destaque. Alguma crítica à interpretação simultânea em vários idiomas que está viabilizando o programa É Campeão!, no ar pelo SporTV? Que eu saiba, não; a equipe de intérpretes está mesmo batendo um bolão!

E o programa de interpretação voluntária Rio Amigo, do qual participei, que oferece interpretação telefônica gratuita para sete idiomas? Alguém ouviu falar? Talvez poucos soubessem da existência do serviço, que foi divulgado principalmente por seus participantes em campanhas nos estabelecimentos na zona sul do Rio de Janeiro.

Imagino que muitos intérpretes competentes que ouvi nas coletivas de imprensa importantes ou que acompanharam as seleções de perto tenham talvez até se tornado bons amigos de seus clientes, o que não é raro em função da proximidade que o trabalho exige. E muito do trabalho de tradução e interpretação também não passou pelas câmeras. Todo material de sinalização nas ruas e nos meios de transporte, por exemplo, foi traduzido ao menos para o inglês, e o feedback dos visitantes foi positivo.

Para o povo em geral, o verdadeiro legado da Copa foi, principalmente, imaterial. Só quem viveu a experiência de receber os turistas em casa, transitar pelas ruas como se estivesse na Torre de Babel, arranhar um pouco de inglês para ajudar um torcedor estrangeiro ou travar boas conversas com pessoas de diferentes nacionalidades nas mesas de bares lotados das cidades poderá medir a importância do evento com base na sua experiência.

Em minhas “maracandanças” pensando na campanha Love Your Translator, foi inevitável relembrar que entrei na profissão de tradução/interpretação graças a um evento esportivo: os Jogos Pan-Americanos de 2007. Na UERJ, onde estudei, participei de um projeto-piloto de interpretação para taxistas cadastrados pelo Ministério do Turismo. Assim, o valor que essa experiência teve para mim foi definitivo, em termos materiais e imateriais: ela me trouxe um norte de mudanças.


Acredito que para a atual seleção brasileira o legado talvez tenha sido mais doloroso, mas não diferente: mudanças! Após a derrota, vem a frustração, as necessidade de se repensar, se criticar, se recriar... E não é isso o que fazemos dia a dia? Não são muitas vezes os fracassos que nos mostram novos caminhos? Por que não encarar a derrota temporária como uma vitória da verdade da emoção sobre a arrogância do orgulho, da força de vontade interior sobre a pressão externa, o que nos dá tempo de ganhar fôlego renovado para as próximas partidas?


Em nossa experiência coletiva, as andanças pelos arredores um tanto míticos do Maracanã sempre poderão nos lembrar daqui pra frente da derrota como algo nem sempre negativo, mas que gera mudanças, para crescermos sempre como pessoa, povo, profissionais e craques da arte de viver. E aos que serão abraçados pelo estádio na final, a última recordação: o que importa mesmo é o amor pela arte de jogar, e só ama quem aceita as falhas dos seres amados, ou jogadores. Então, bola pra frente, e que vença quem mais amou!


segunda-feira, 2 de junho de 2014

Odeon: ame-o ou deixe-o - LYT no Rio, parte II


Estava pensando em como escrever o segundo texto da campanha Love Your Translator, dedicado aos legendadores e dubladores. É uma tarefa desafiadora, pois basta fazer uma pesquisa no Google sobre "tradução de filmes" para vermos apenas críticas negativas. Mas ao ler a triste notícia no Facebook do Sindicato das Empresas Exibidoras Cinematográficas do Rio de Janeiro de que o tradicional Cine Odeon teria encerrado suas atividades, tive "suspiração" para a escrita. Como assim, será verdade isso? 
 
O site UOL nega essa informação, com base na declaração de Marcelo França Mendes, diretor do Grupo Estação: "Pessoal, em princípio o fechamento é provisório. O Odeon completará 90 anos em 2016 e um senhor dessa idade precisa de 'check up' periódico. Temos muitas coisas de manutenção urgentes a serem feitas e optamos por fechar durante a Copa porque, se houver manifestações como no ano passado na Cinelândia, nem valeria a pena abrir. Não há data ainda de reabertura porque ainda estamos fechando o patrocínio para essas intervenções. Mas, por enquanto, ainda não é 'the end'".
 
O fim das atividades do Odeon seria um fato minimamente preocupante para os tradutores ligados à indústria do cinema, pois este é o local oficial de eventos que oferecem oportunidades de trabalho sazonais, como o Festival do Rio, o Anima Mundi, o Curta-Cinema, entre outros. E isso nos leva a esclarecer as diferenças entre dois campos de trabalho distintos para os tradutores: a legendagem e a dublagem. A maior parte do público a quem essas traduções se destina confunde as áreas ou pensa que são a mesma coisa. Quase sempre surgem dúvidas, como: Por que a fala do personagem tá diferente? Por que o título do filme mudou? Vejamos primeiro as diferenças gerais e depois as dúvidas.

Segundo Renato Rosenberg, em Conversas com tradutores, como a tradução para legendagem é escrita, ela segue a norma culta; já ó texto traduzido para a dublagem deve levar a interpretação do ator em consideração e se aproxima mais da linguagem oral. A legendagem também precisa resumir ao máximo uma ideia, respeitando as limitações de caracteres na tela e o tempo de leitura, para que o espectador consiga ler. Os textos dublados também muitas vezes são cortados para “caber na boca” do personagem, mas todas as reações dos personagens precisam ser descritas. Quanto à complexidade do processo tradutório, cada tipo de filme é voltado para um para um público diferente e demanda pesquisas diversas, desde terminologias específicas usadas em um documentário a gírias e piadas de filmes de comédia. E cada empresa possui regras diversas em relação a termos, como palavrões, por exemplo, que muitas vezes precisam ser suavizados. As referências culturais em alguns casos também são adaptadas ao público brasileiro, como expressões idiomáticas referentes ao beisebol (que aqui podem ser substituídas pelo futebol). Mas em outras situações isso não é mais necessário, pois com a globalização mais pessoas estão tendo acesso a informações culturais de outros países e conseguem captar referências a celebridades e marcas de produtos internacionais, por exemplo.

Tudo isso responde à primeira dúvida e explica a necessidade de adaptação das falas dos personagens em muitas situações. Já a pergunta sobre os títulos dos filmes é respondida por Ulisses de Carvalho no seu site Tecla SAP de forma direta: “porque o tradutor não tem nada a ver com essa questão”. Veja detalhes aqui: http://www.teclasap.com.br/traducao-titulos-de-filmes/

Reforçando a temática da campanha “Love your Translator”, vamos finalizar com uma avaliação das críticas recebidas pelos legendadores e tradutores para dublagem, tanto do público quanto da imprensa.
 
Para o primeiro caso, Ulisses de Carvalho nos oferece no Tecla SAP mais um bom conselho: “Um dos passatempos nacionais é falar mal de legendagem. Encontrar erro no serviço dos outros é fácil e divertido. Fazer serviço sem erros é mais difícil e, provavelmente, menos divertido. Essa história de ficar catando erro em serviço dos outros é perda de tempo. Quando você encontra um erro no serviço de um colega, não aprende nada: se você encontrou uma tradução e notou que estava errada, é porque já sabia. Melhor ficar procurando os acertos, aquelas sacadas em que você jamais tinha pensado, soluções que nunca tinham passado pela tua cabeça. E legendagem é sempre uma lição extraordinária para todos nós, mesmo quando não é nenhum primor de trabalho.”

Por isso a crítica de legendas sempre me incomodou: porque é preciso ter acesso ao original para fazê-lo e, de preferência, entender do assunto. A crítica a um erro específico de um trecho, por exemplo, talvez por falta de atenção ou conhecimento do tradutor, não é uma crítica do processo de tradução em si, mas uma crítica gratuita, que fala mais sobre o ego do crítico do que qualquer outra coisa.

Quanto aos dubladores, Renato Rosenberg nos traz uma boa reflexão: “Nós, da dublagem, sempre tivemos problemas com a imprensa em relação ao nosso trabalho. Embora haja uma lei (...) dizendo que toda dublagem deve ser feita em território nacional, os distribuidores ‘esquecem’ disso e (os estúdios de dublagem nos Estados Unidos) pegam qualquer brasileiro que queira ‘fazer um bico’, sendo ator ou não, para dublar. Nem preciso dizer que o resultado beira o ridículo. Mas boa parte da imprensa prefere dar nota zero para a dublagem de determinado filme, sem mencionar este fato. Não sei se por falta de hombridade ou de conhecimento do assunto. Mas... se quem faz isso não conhece o assunto, por que escreve sobre ele?”

Entender melhor o trabalho do tradutor faz com a gente pense antes de criticar uma legenda ou de se negar a oportunidade de assistir a um filme dublado. E mais: pense nos deficientes visuais e nas crianças, por exemplo, que realmente precisam da dublagem. Isso por si só já não seria um motivo para amarmos um pouco mais os legendadores e dubladores?

Daí se conclui que a tradução não é essencialmente ruim ou boa, mas um componente, em geral imperceptível, que torna a experiência no cinema viável para alguns e mais rica para outros –  este é o meu caso, pois sou fã de traduções. Para os que não gostam, OK, basta esperar o filme sair em DVD ou usar a tecla SAP, mas esses de alguma forma vão deixar de aprender alguma lição com o trabalho do profissional da tradução. É isso: "tradutor: ame-o ou deixe-o".